segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Descaramento

"A firmer (and, at 43,000 words, longer) rebuttal of the report by the fourth Republican, Peter Wallison, puts the blame squarely on government policies aimed at increasing home ownership among the poor. Mr Wallison argues that the pursuit of affordable-housing goals by government and quasi-government agencies, including Fannie Mae and Freddie Mac, caused a drastic decline in loan-underwriting standards."

The Economist, 27 de Janeiro de 2011, a respeito dos relatórios produzidos no âmbito da Financial Crisis Inquiry Comission do Governo dos EUA


Parte I: As origens da crise

A primeira vez que me senti indignado relativamente a esta matéria foi quando assisti na televisão, nos rescaldos da crise financeira de 2008, a um economista da corrente dominante a explicar, num tom extremamente pedagógico, que a crise decorreu de uma tentativa do Estado em "fazer o bem", facilitando o crédito à habitação às famílias, o que levou à bolha imobiliária e à crise do subprime, que por sua vez esteve na origem da falência do Lehman Brothers e da AIG e da crise económica mundial que se seguiu.

Posteriormente, os relatórios dos elementos republicanos da comissão de inquérito do congresso norte-americano às origens da crise financeira, repetiram esta ideia. Segundo eles a crise imobiliária não foi um fósforo, mas antes um camião cisterna a explodir.
Um camião cisterna a explodir numa refinaria, diria eu! É preciso ter muita lata! Esta mesma corrente económica dominante, religiosamente defensora do Estado mínimo e dos mercados auto-regulados eficientes, foi a mesma que aconselhou (e continua a aconselhar) os decisores políticos a desregularem os mercados, permitindo a constituição de grupos financeiros too big to fail, instrumentos que testemunham o engenho da moderna engenharía financeira e níveis de alavancagem impressionantes... e agora ainda conseguem utilizar a crise para fortalecer os seus argumentos fundamentalistas relativamente à eficiência dos mercados e aos efeitos nefastos da intervenção pública.


Certamente que os incentivos estatais tiveram influência no acesso ao crédito hipotecário, mas reduzir o que se passou a isto e negar a influência da desregulamentação na origem e na propagação da crise, é demasiado descaramento, rossa a desonestidade intelectual.
Abaixo segue a explicação em maior detalhe o papel do sistema financeiro desregulamentado em que vivemos nas origens da crise económica e financeira que varreu, e continua a varrer, a generalidade das economias avançadas.
Quando alguém precisa de um crédito, recorre a um banco. É do interesse do banco emprestar dinheiro, porque só assim gera lucros, mas também é do seu interesse assegurar que o devedor vai ser capaz de pagar o empréstimo. Deste modo, há um conflito de interesses positivo, que leva a que os bancos sejam ponderados na atribuição de empréstimos.


Entretanto, a moderna engenharía financeira criou e generalizou um novo instrumento, os Credit Default Swaps ("CDS"), que permitem aos brancos passar o risco de incumprimento dos devedores para outros agentes, a troco de um pagamento monetário.

Num mundo perfeito, o risco de incumprimento dos empréstimos subjacentes aos CDS concorre para a formação do preço destes. O problema é que por alguma razão as agências de rating davam sempre notas elevadas a estes títulos, não reflectindo o risco real. Sem querer pôr em causa a questionável isenção das agências de rating, eu diria que as mesmas não tinham um interesse tão grande em fazer um escrutínio rigoroso ao empréstimo de 100 mil euros do Sr. Silva, quanto o tería o banco que concedia esse crédito, uma vez que as referidas agências não eram afectadas pelo incumprimento do Sr. Silva.

Deste modo, os bancos tinham um interesse acrescido em emprestar dinheiro aos agentes, uma vez que conseguiam cobrir o respectivo risco a preços reduzidos, que não reflectiam o nível de risco real.
Para além disso, uma vez que é permitido aos grupos financeiros possuir actividades de banca comercial e de banca de investimento, estas instituições ganhavam ainda pela transacção dos CDS no mercado.


Adicionalmente, o aumento das facilidades de crédito para aquisição de imóveis levaram a um aumento constante do preço das habitações, levando a que se criasse a expectativa de valorização indefenida. Uma vez que se esperava que o preço das habitações aumentasse com o tempo, e como os créditos à habitação têm como garantia a própria habitação, originou-se uma percepção de menor risco de incumprimento, levando à diminuição dos spreads para crédito hipotecário, bem como dos preços dos CDS associados.

Com todos estes incentivos a emprestar, as instituições financeiras agiram racionalmente e multiplicaram-se os créditos à habitação. Quando se acabaram os "bons" devedores, passou-se para os "maus", i.e. aqueles que não tinham tão boas condições de cumprimento.

Quando se verifica incumprimento, os bancos executam a hipoteca e colocam o imóvel à venda. Quando muitos devedores deixaram de conseguir pagar os seus empréstimos muitas habitações foram colocadas à venda, pressionando os preços do mercado imobiliário para baixo.

Com a diminuição do valor das habitações, diminuia também o valor o valor das garantias dos empréstimos à habitação existentes, aumentando o risco associado ao incumprimento. De um momento para o outro, as instituições financeiras altamente alavancada viram os CDS que tinham acumulado perder valor, ao mesmo tempo que tinham que fazer face a cada vez maiores situações de incumprimento.

O resto já se sabe: originou-se uma crise de liquidez que se repercutiu na economia real e, dada a interligação das economias munidais, propragou-se rapidamente a nível global. Simultaneamente os governos tiveram que acorrer, endividando-se para garantir a sustentabilidade dos seus sistemas financeiros, asegurar a subsistências dos seus cidadãos mais desprotegidos e relançar as respectivas economias.


"In this sense, the fall of Wall Street is for market fundamentalism what the fall of the Berlin Wall was for communism—it tells the world that this way of economic organization turns out not to be sustainable. In the end, everyone says, that model doesn't work. Actually the model only failed the citizens, while working perfectly in ensuring profits for the Wall Street financial groups that run the USA, so privatising gain and socialising the risk when the markets fail to work as hoped.

This moment is a marker that the claims of financial market liberalization were bogus."

- Joseph E. Stiglitz: "The Fall of Wall Street Is to Market Fundamentalism What the Fall of the Berlin Wall Was to Communism", Entrevista com Nathan Gardels, The Huffington Post, 16 de Setembro de 2008

1 comentário:

  1. Boa noite a todos os Desconfusos.

    Gostaria de adicionar o presente comentário ao deveras esclarecedor post acima, não tanto numa óptica de "comentar", mas numa de "acrescentar". Onde começou a crise? Houve, claro, um boom do crédito imobiliário que desencadeou todo o processo já repetido até à exaustão! Porém, qual o acontecimento que escancarou as portas ao subsequente e tão nosso conhecido subprime? É que os bancos sempre emprestaram dinheiro - não é um fenómeno dos últimos 20 anos, certo? A principal diferença entre os loucos anos 2000 e um passado não tão remoto reside nas taxas de juro. O que fez com que nesse grande bastião do capitalismo (leia-se EUA) passassem a ser tão baixas?. A resposta é: a bolha .com. Pois é... o crédito imobiliário não foi o único a ter uma bolha. Essas nunca diabolizadas empresas ligadas à Internet e a outras rentáveis novas tecnologias de informação desempenharam um papel primordial neste processo. Desde o início dos anos 90 foram fundadas um sem número de novas empresas baseadas na Internet, com características que viriam mais tarde a levar a um rebentar da bolha: aumento rápido do preço das acções, confiança desmedida em lucros futuros, disponibilidade de capital de risco e uma especulação baseada numa confiança cega nos avanços tecnológicos. Em 10 de março de 2000, e depois de um aumento das taxas de juro nos EUA, o índice Nasdaq Composite caiu devido à ordem de venda maciça de dólares para empresas da mais alta tecnologia, como a Cisco, A Dell e a IBM.
    Este acontecimento deu-se nos EUA, mas alargou-se a todo o mundo, que já lhe havia seguido as pisadas e considerado as empresas ponto-com como a nova “mina de ouro” da economia.
    Durante o ano 2001, muitas destas empresas cessaram actividade e deu-se, então, o acontecimento que viria a desencadear a crise do subprime. Numa tentativa de minorar as consequências adversas do rebentar da bolha ponto-com para os investidores, a Reserva Federal Americana, na pessoa de Alan Greenspan, então seu presidente, decide baixar de forma radical as taxas de juro. Assim, com o propósito de auxiliar os agentes económicos através das baixas taxas de juro, incitaram simultaneamente a um “novo” tipo de investimento: o investimento imobiliário massificado.
    Com a queda das taxas de juro para 1% (2000-2001) e a sua manutenção neste valor até 2004, viveu-se o chamado período da “Great Moderation”: abolidas as preocupações com a taxa de juro, a aversão ao risco era mínima e as oscilações eram diminutas. Puderam, então, empresas e consumidores alimentar essa ilusão de que o lucro é fácil e que é possível elevar o nível de vida sem esforço. Como é que esta ilusão se materializou?
    A palavra “massificado”, acima utilizada, é neste contexto sobremaneira importante: foram concedidos empréstimos hipotecários de alto risco e taxa variável aos chamados clientes Ninja – acrónimo inglês que significa Sem Rendimentos, Sem Trabalho ou Bens (Ninja mortgages - standing for NoIncome, No Job or Assets). Estes empréstimos a famílias financeira e socialmente fragilizadas surgem, como já foi dito, num cenário de taxas de juro historicamente baixas, que permitiam aos bancos financiar-se e financiar a um custo reduzido. E o resto da história sabemo-la e vivemo-la ;-)

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