sábado, 2 de abril de 2016

Adeus Cuba!

Numa altura em que o Capitalismo definha no seu terminal estágio de Último Reduto e se encontra aberta a vaga para modelo socioeconómico do mundo, os mais recentes eventos em Cuba (com a visita de Obama e o concerto dos Rolling Stones) prenunciadores de um processo de abertura deste regime a ocorrer num futuro próximo, não podem deixar de ser vistos e encarados como uma capitulação e rendição do Comunismo e uma admissão, por parte do seu maior embaixador, que este não será o modelo a ocupar essa mesma vaga.

Depois de muito resistir e subsistir a um embargo e isolamento históricos, não deixa de ser curioso (e revelador da incapacidade comunista) ser exactamente no momento de maior fragilidade e vulnerabilidade do Capitalismo, com as suas débeis estruturas financeiras e os seus alicerces imobiliários com fissuras que ameaçam o desabamento e colapso, ser exactamente neste período de debilidade capitalista em que se anseia por uma solução alternativa, que o último bastião comunista capitule perante o bastião capitalista e lhe abra as suas portas, com o desejo mal disfarçado de lhe abrir muito mais… O início do fim do embargo e isolamento cubanos, simbolizado pelos eventos acima referidos, significa tão somente a admissão de Cuba aos mercados de bens e serviços mundiais, aos mercados financeiros e de capitais do mundo ocidental e capitalista e o facto de tal admissão ser desejada por Cuba significa tão somente a capitulação comunista e a confissão do seu maior prossecutor de que este não é nem nunca será o modelo socioeconómico capaz de providenciar a qualidade de vida, em termos económicos e sociológicos, por que as pessoas anseiam.

Sendo Cuba o último reduto do Comunismo, o único caso de algum sucesso relativo e o reinado mais longo da experimentação comunista, a sua capitulação enfatiza a impraticabilidade da teoria comunista. A teoria comunista, e restrinjo-me aqui à original marxista e não às derivações do seu choque com a realidade nas variantes leninistas e trotskistas, consagra na sua ideologia um estádio de transição, que antecederia o atingimento do estado idílico comunista, a que designa de “ditadura do proletariado”; a ditadura do proletariado designa a fase de transição do modelo anteriormente vigente para o modelo comunista e defende, segundo Karl Marx, que durante esta fase dever-se-á inclusive recorrer à força física e armada de forma a reprimir e eliminar quaisquer agentes e elementos com ligações ao anterior e pernicioso regime não-comunista, porquanto não seria possível atingir o estado igualitário do Comunismo enquanto subsistissem agentes dissidentes e defensores do antigo regime. O insucesso de toda e qualquer experimentação comunista prende-se exactamente com o facto de nunca nenhum destes regimes ter sido capaz de superar este estádio, que supostamente seria de transição, da ditadura do proletariado e ter atingido o estado final do Comunismo; em abono da verdade para com a ideologia marxista, poder-se-á mesmo afirmar que nunca existiu um verdadeiro regime comunista no mundo e que tudo o que houve foram regimes de ditadura do proletariado, que se esgotaram nesta fase transitória sem nunca ter conseguido culminar num verdadeiro estado comunista. Muitas razões podem ser apontadas para esta incapacidade mas a mais premente, subsistente e insuperável enraíza-se na própria natureza humana, que, como definiu Adam Smith (ideólogo contra quem idealizaram Marx e Engels), é essencialmente e fundamentalmente egoísta e individualista e por isso contrária à teoria igualitária e despojada de individualismo preconizada pelo Comunismo.

Cuba terá sido o projecto que mais se aproximou da superação do estágio da ditadura do proletariado e do alcance de um verdadeiro estado comunista mas depois de meio século a combater a natureza humana, a final e anunciada capitulação exclama a insuperabilidade deste estágio que nunca se conseguiu que fosse apenas de transição. Depois de ter sobrevivido à guerra-fria e ter subsistido quando todos os outros pereceram já, Fidel Castro sucumbe “at last” perante o inimigo que a todos os pretendentes comunistas derrotou e derrotará, a natureza humana. Contra ela bastante lutou e nessa luta atentatória dos direitos humanos, por atentar contra a sua natureza, pode levar com ele, como menção honorária, uma população 100% alfabetizada, instruída e educada e um sistema de saúde universal gratuito de cuidado e tratamento humano que a ninguém exclui…Pode levar com ele ter sido quem mais perto esteve de atingir o clímax comunista nunca antes experienciado. Mas levará também, certamente com ele, as mortes e as castrações de liberdades de que foi responsável nesta tentativa utópica de contrariar a natureza humana.


“Se ela pudesse expor os seus sentimentos diria que não era isso o que eles desejavam quando destronaram a raça humana. Estas cenas de terror e assassinato nada se pareciam com o que visionavam naquela primeira noite em que Major lançara as bases para a Revolta. O seu ideal era uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais, cada um trabalhando segundo a sua capacidade, o forte protegendo o fraco, como ela tinha protegido com a sua pata os pequenos patinhos na noite do discurso de Major. Em lugar disto – e sem saber porquê – agora ninguém podia expor os seus pensamentos sem ser agredido por cães ferozes, e obrigado ainda a ver os seus camaradas feitos em pedaços, depois de confessarem os seus chocantes crimes.” (George Orwell, em “O Triunfo dos Porcos”).         

sábado, 12 de março de 2016

O Drama Europeu: A Superação – A Crise dos Refugiados e o Quinto Império

Nos dois anteriores textos referi como a resposta à dissolvência da matriz identitária da Europa no panorama internacional conduziu a uma descaracterização interna resultando tal num agudizar da crise identitária que acomete a União Europeia a este drama de que vos falo. Como superá-lo?

Resultando este drama de uma confluência de duas vertentes de alienação identitária, a ocorrida no plano externo e a respondida no plano interno, torna-se imperativo que a superação do mesmo ocorra nas duas vertentes.

No plano interno, urge desfazer o que de mal se fez. Tal implica retornar urgentemente à matriz identitária inicial da Europa e aprofundá-la; recuperar a Economia Social de Mercado enquanto modelo socio-económico vigente e abandonar esta rendição ao Capitalismo de Último Reduto. Esta recuperação da Economia Social de Mercado deve ser feita com um aprofundar dos princípios de cooperação e solidariedade que a sustentam e que são fundamentais à sua subsistência. Neste plano, e como sinal inequívoco do aprofundamento destes princípios, torna-se imperativo o desenho e implementação de uma política fiscal comum (vide Eurobonds) que não deixe a política monetária e a moeda única nesta orfandade definhadora do futuro europeu e das possibilidades da União Europeia.

No plano externo, referi em escritos idos, que existem duas formas de facultar poder diplomático no contexto internacional, a via militar e a via financeira; referi já o despropósito e absurdo condenados ao fracasso que seriam a União Europeia tentar adquirir um papel de relevância à mesa do mundo pela via militar e demonstrei ainda como a tentativa de recuperar essa mesma relevância pela via financeira degenerou numa crise identitária interna que se somou à externa no resultado desta drama europeu. Assim, proponho uma terceira e não tentada via para a aquisição de influência política no plano internacional: a via da opinião púbica. Creio, genuinamente, que um poder conferido por uma opinião pública, generalizada e magnânima favorável é mais forte do que aquele conferido por canhões e dólares. Tal assunção é comprovável de diversas formas mas julgo que a mais cristalina de forma a melhor se compreender o que falo reporta-se aos próprios manuais de estratégia militar, em que é comumente assumido que o sucesso ou fracasso das operações desta natureza depende vitalmente da aceitação ou repúdio por parte da opinião publica dessas intervenções, e por isso os governos que embarcam em tais empreitadas despendem tanto tempo e recursos a convencer a opinião publica da justeza dessas iniciativas bélicas (vide governação de George W. Bush); e não é por isso também de estanhar que quando a opinião pública deixa de sustentar tais operações, estas pareçam iniciar um desfalecimento conducente as seu fracasso (vide Vietname e Iraque). Facilmente se concluirá que um Estado ou uma entidade supranacional como é o caso da União Europeia, se for percepcionada pelo opinião pública generalizada, massiva e magnânima como o bastião dos valores e princípios humanitários e humanistas, da solidariedade e de conduta social correcta e justa, essa mesma entidade torna-se, no panorama internacional, inexpugnável e detentora de um poder imune a canhões e “incorrompível” a dólares. Esta é a via que proponho para a União Europeia recuperar a sua preponderância internacional e assim resolver a alienação identitária que, também neste contexto, a definha no seu futuro e nas suas possibilidade, a via de uma opinião pública magnanimamente favorável. Como consegui-lo? Consegui-lo-á por via da Crise dos Refugiados! A crise dos refugiados constitui-se numa oportunidade única para a Europa se afirmar como o bastião dos valores e princípios humanitários e humanistas, da solidariedade e da conduta social correcta e justa; para tal terá de, como é óbvio, alterar radicalmente o paradigma que tem ditado a sua actuação perante este que é provavelmente o maior desafio do mundo actual e assumir-se definitivamente como a entidade que acolherá, albergará e cuidará dos espojos humanos resultantes das outras vias do poder, a militar e a financeira. Ao fazê-lo, a União Europeia elevar-se-á e ao conseguir o poder de uma opinião publica internacional que lhe seja esmagadoramente favorável, colherá benefícios que ultrapassarão em muito os custos associados a uma política dedicada, comprometida e decidida no acolhimento e integração humanitária dos refugiados. Não perceber isto politicamente apenas se poderá explicar pelo pragmatismo bacoco e redutor das possibilidades da União que parece, nos últimos tempos, ter tomado conta do destino da Europa.

Dirão que tal perspectiva é idealista e ingénua…Sim, é verdade! Mas trata-se de um idealismo consciente de que o é…de um idealismo consciente de que o pragmatismo redutor, de que falei no final do parágrafo anterior, reduziu a Europa a uma Europa a duas velocidades cuja concretização é conduzida e orquestrada por um bando de tecnocratas e burocratas que, a partir de Bruxelas e escudados em Maastricht, se impõe, arrogante e abusivamente, a governos democraticamente eleitos…de um idealismo consciente que apesar do sonho de Martin Luther King nunca se ter concretizado, 50 anos depois tivemos como homem mais poderoso do mundo um homem negro…de um idealismo consciente de que os grandes avanços civilizacionais não ocorrem decorrentes de pragmatismo mas sempre enraizados em idealismo…Trata-se de um idealismo consciente que a superação deste drama europeu apenas ocorrerá quando se abandonar o Castelo Kafkiano em que transformou a Europa e se ir em busca do 5º Império Pessoano nas costas do Egeu!

“Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer da asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?”

                                               (Fernando Pessoa, em “Mensagem”)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O Drama Europeu: A Resposta – A Experimentação Periférica e a Europa a Duas Velocidades

Perante o surgimento pujante da China enquanto potência económica mundial e a braços com uma crise económico/financeira, a União Europeia viu relegada para segundo plano a sua relevância no quadro político internacional, o que conduziu a uma alienação identitária do projecto europeu, em termos externos, carente de uma resposta imediata e assertiva por parte da Europa. Qual foi essa resposta?

O poder político, diplomático é conferido por uma de duas vias, a financeira ou a militar ou, como no caso dos EUA, pelas duas em simultâneo (e daí ser a superpotência mundial que é). Confrontada com a necessidade de recuperar a sua posição de poder no quadro diplomático internacional, optar por uma via militar seria despropositado e inevitavelmente desastroso, não só porque se constituiria numa missão quase impossível como seria também atentatório dos próprios princípios e fundamentos da União Europeia de não beligerância e de uma imposição no panorama político internacional por vias pacíficas. Restava então à União a via financeira. Dissequemos então essa resposta… 
A resposta dada pela União Europeia, não sendo um prodígio de criatividade, designa uma reacção muito típica de alguém ou algo quando se vê confrontado como uma entidade que a ameaça, e que passa por replicar a acção dessa própria entidade ameaçadora. Quando alguém grita connosco, é reacção natural gritarmos de volta em resposta, quando alguém nos esmurra é expectável devolvermos um soco da nossa autoria…Quando a China cresceu a ritmos alucinantes alicerçada num modelo de crescimento cujo factor competitivo se constitui nos baixos custos de mão-de-obra praticados, a Europa quis responder na mesma moeda e importar para o projecto europeu esse mesmo modelo de crescimento assente numa desvalorização do factor trabalho enquanto factor de competitividade.

Um aspecto relevante do processo de integração europeia e um traço marcante da sua identidade constituía-se na sua política comum, pelo menos aparente e formal, de tomada de medidas que apontassem a um processo de convergência entre os países periféricos e os países do centro da Europa; cronicamente com índices de produtividade inferiores aos dos países do centro europeu, a União Europeia, através de Bruxelas sempre incentivara e promovera junto dos governos dos países periféricos a adopção de medidas e políticas que visassem o aumento dos índices de produtividades desses países que os permitisse concretizar modelos de crescimento económico e desenvolvimento social semelhantes aos prosseguidos no centro da Europa, sustentados em mão-de-obra qualificada capaz de gerar output de alto valor acrescentado, e cujos benefícios do processo de crescimento decorrente seriam partilhados justamente por essa mão-de-obra qualificada, contribuindo dessa forma para um processo de crescimento económico mitigador de desigualdades e, consequentemente, para um processo de desenvolvimento social e humano mais justo e sustentável. Este era até recentemente, no que a características internas diz respeito, a matriz identitária fundamental da União Europeia e da Europa.

Tudo mudou de há 5/6 anos a esta parte! Com o surgimento da crise de dívida soberana, afectando sobretudo os países periféricos europeus, e perante a ameaça chinesa já abordada, a Europa viu-se encurralada para o canto do imperativo de crescimento económico imediato. Com a China a relegar a Europa para um plano financeiro mundial secundário e os mercados a exasperarem-se com as dívidas periféricas, não existia já tempo para esperar que medidas de longo-prazo como as que incidem sobre a educação, formação e qualificação de mão-de-obra necessárias à prossecução de modelo de crescimento preconizado, fizessem o seu efeito. Perante este imperativo de crescimento económico, aos países que não tinham conseguido, durante o tempo de “vacas gordas” na Europa, dotar as suas economias de índices de produtividade capazes de sustentar o modelo económico virtuoso atrás descrito, para esses países acabara-se a paciência…Não tendo, durante todo este tempo de União Europeia, sido capazes de fazer convergir os seus índices de produtividade com os dos países do centro e perante o imperativo de crescimento económico enfrentado pela Europa, a estes países periféricos, com baixos índices de produtividades, restava aceitar a imposição de um modelo de crescimento susceptível de gerar resultados imediatos sujeito aos condicionalismos de produtividade supra referidos. A estes países periféricos restava aceitar a imposição pela Europa do modelo de crescimento chinês, assente numa economia capaz de atrair investimento privado não pelos seus índices de produtividade mas pelos baixos custos da sua mão-de-obra.

A imposição deste modelo de crescimento aos países da periferia levada a cabo por Bruxelas foi possibilitada e facilitada pela crise das dívidas públicas enfrentada por estes países; a troco de resgates financeiros e compra de títulos de dívida por parte do BCE em mercados primários e secundários, exigiu-se a estes países que flexibilizassem o seu mercado laboral, que cortassem nos salários praticados, que eliminassem subsídios e regalias laborais, que aumentassem a carga horária laboral e que até feriados (religiosos ou não) se cortassem… Exigiu-se tudo que conduzisse a uma desvalorização laboral coadunável com o modelo de crescimento proposto para esses países.

E foi assim que, na Europa, se deu início a esta experimentação periférica, que ocorre nos dias de hoje, e que designa a transposição para o modelo europeu, por via dos países da periferia, do modelo de crescimento económico chinês, que por apenas incidir sobre os países periféricos determina uma reconfiguração da Europa e a passagem de uma Europa de convergência para uma Europa assumidamente a duas velocidades, com um modelo de crescimento económico assente em mão-de-obra qualificada para os países do centro e um outro modelo de crescimento económico assente mão-de-obra barata para os países periféricos.


Assim se conclui que da resposta à alienação identitária da Europa no plano externo resultou uma descaracterização em termos internos que apenas agravou a crise identitária europeia e que coloca uma nova e derradeira questão: Como superar este drama Europeu?

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O Drama Europeu: A Problemática – A Ameaça Chinesa e a Crise da Dívida Soberana

A Europa, ou melhormente especificando, a União Europeia vive actualmente uma crise que, tendo raiz financeira é hoje uma crise identitária que ameaça os mais robustos alicerces da construção europeia… os alicerces da não beligerância, da solidariedade e da prosperidade.
Proponho nos próximos três textos abordar este drama europeu, incidindo o presente naquilo que percepciono ser a origem e a raiz desta decadência europeísta que descaracterizou o projecto europeu e o metamorfoseou numa identidade hostil aos próprios países que o integram.

A União Europeia, desde a sua existência, consubstanciou o seu poder, no que á geopolítica mundial concerne, no seu poderio económico atestado pelo facto de se constituir no maior mercado interno em termos mundiais, o que foi possibilitado pela abolição das fronteiras comerciais e potenciado por um livre mercado alargado. Confiando a sua representatividade militar inteiramente à OTAN, o que significa basicamente confiá-la aos EUA, restava à Europa a via financeira e económica para lhe conferir verdadeiro poder diplomático que a tornasse um “player” relevante no xadrez político mundial, e foi esta até recentemente a identidade matricial e primordial da União Europeia, um poder diplomático relevante conferido pela via económico-financeira e não pela via militar, usado amiúde para, no contexto internacional, fazer valer os sues valores humanitários de liberdade, igualdade e fraternidade. E foi sobretudo devido a esta identidade iluminada que sempre fui apologista do projecto europeu e um europeísta convicto; sempre fui acérrimo defensor de um acréscimo de poder da União Europeia no panorama político mundial (em detrimento de outras potências como os EUA e a Rússia) exactamente por o seu poder ser conferido por uma via não militar e logo menos susceptível de se tornar totalitário e despótico.

Essa realidade no entanto mudou. A União Europeia já não é o maior mercado interno mundial, nem o segundo sequer, e a perda de poder diplomático decorrente degenerou numa alienação identitária que é a raiz deste drama europeu de que vos falo. O que foi então que ocorreu no panorama internacional que conduziu á perda do poder económico europeu e à sua inanição política? A resposta mais óbvia passa por referir a crise financeira de 2008 e a sua degeneração em crise de dívida soberana de que os estados europeus não se conseguiram ainda libertar. Tal resposta é correcta mas incompleta porquanto o espaço europeu já havia deixado de ser o maior mercado interno mundial e perdido relevância política antes ainda de “Wall Street” ter tocado a sineta da crise financeira. A verdade é que esta mesma crise apenas enfatizou e agudizou o processo de declínio europeu originado e principado pelo surgimento da China enquanto nova potência mundial.

A China tal como a União Europeia consubstancia o seu poder politico/diplomático no seu poderio financeiro e não militar (que saibamos), no entanto, os factores desse poder financeiro diferem abissalmente daqueles explicadores do sucesso financeiro europeu, porquanto não derivam da criação de um espaço económico alargado potenciador de crescimento económico por via do aumento das trocas comerciais daí decorrentes. Embora o aumento do poder financeiro chinês e decorrente aumento da sua relevância política não se justifiquem na criação de um espaço de comércio alargado, tal apenas foi possibilitado e propiciado por ter sido permitido à China aceder ao comércio mundial, tendo-se-lhes abolido essas fronteiras comerciais; ora, num comércio mundial com tantas restrições e tantos embargos a tantos países, perguntar-se-á como foi possível deixar aceder aos mercados mundiais e em pé de igualdade um país que até há bem pouco tempo tinha como política de controlo de natalidade a criação de quartos de extermínio para bebés e crianças não primogénitos. A resposta não é senão mais um exemplo cristalino da submissão de tudo ao primado financeiro e designa os parâmetros que balizam o poder económico-financeiro que sustenta este surgimento da China enquanto potência mundial, a saber:
- um crescimento económico galopante baseado num modelo de baixos salários, repressão e supressão de direitos laborais resultando numa situação de exploração laboral que a escravatura se assemelhará;
- uma política estratégica agressiva de aquisição de dívida soberana; a China é de há muito tempo para cá um dos principais adquiridores de títulos de dívida de muitos países ditos desenvolvidos, mormente dos EUA, assumindo-se dessa forma como financiador fundamental dessas economias;
- a China detém o monopólio da extracção e exportação dos materiais raros; materiais raros designam um conjunto de minérios cuja inclusão é indispensável ao funcionamento dos “gadgets” tecnológicos que tanto caracterizam o estilo de vida ocidental e desenvolvido, como smartphones, I-Phiones, I-Watches e outros “Ais” que designam o consumismo cosmopolita que consome mais do que matérias.
Dos três factores enunciados, sobretudo os dois últimos, resulta um poder financeiro bem diferente do do europeu, porquanto designa um poder político de sequestro e de chantagem, palpável nas possibilidades que sugere: “se não fazes como quero não te compro mais dívida nem vendo mais materiais de que dependem as tuas corporações babilónicas e no fundo todo o teu estilo de vida”.

E foi com este poder financeiro de sequestro e de chantagem que a China, apesar das atrocidades humanitárias que se lhe reconhecem, acolheu a receptividade dos mercados mundiais e, em mais uma manifestação da submissão de tudo ao primado financeiro (vide Capitalismo de Ultimo Reduto – o Grande Sequestrador), relegou para plano secundário de irrelevância a Europa e a União Europeia.


Perante este pepel secundário no plano político mundial para que fora relegada, impunha-se uma resposta à União Europeia a esta problemática da ameaça chinesa agudizada pela crise de dívida soberana. Impõe-se então a pergunta: e que resposta foi dada?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Presidenciais 2016:…e não votarei em nenhum outro candidato em Nome da Indiferença!

Embora continue a passar ao lado do mediatismo nacional, por motivos variadíssimos, a verdade é que estamos na iminência de escolher o chefe de Estado Maior e figura máxima da democracia para os próximos cinco complicados anos da vida dos portugueses. Na questão de saber quem será o sucessor do “cavaquismo”, que impregnou de sisudez parcial e muitas vezes irracional o Palácio de Belém, após responder à questão fundamental e primeira de “votar ou não votar em Marcelo Rebelo de Sousa?”, impõe-se a pergunta secundária decorrente da resposta negativa à primeira: “Em quem votar então?”

No que ao vosso escriba diz respeito, a resposta à pergunta secundária não se altera da primeira e a negativa continua a imperar na minha receptividade às Presidenciais 2016 e aos seus candidatos. No entanto, embora o sentido da resposta seja o mesmo a fundamentação da mesma difere e se a negação de votar em Marcelo Rebelo de Sousa se sustentava numa motivação de diferença (escalpelizada no anterior texto), a razão para não votar em mais nenhum outro candidato manifesta-se na indiferença com que essas mesmas candidaturas se me apresentam e que uma campanha vazia de ideias não ajudou a dissipar. Ainda assim, e a bem da democracia, a indiferença que tais candidaturas me suscitam não deverá ser impeditiva de analisar, um a um, os candidatos e os motivos que me levam a não votar neles, não deixando, assim, nenhum de fora e a todos, candidatos de primeira ou de segunda, rejeitar categoricamente.

Marisa Matias e Edgar Silva – jamais votaria para presidente quem não considero ser candidato presidencial mas meras extensões de propaganda ideológica e disseminação de mensagem política dos aparelhos partidários que os apoiam; as candidaturas de Marisa Matias e Edgar Silva não têm o intuito de os constituírem verdadeiros candidatos a Presidente da República mas tão somente aproveitar o tempo de antena reservado à campanha presidencial com o fito único de cumprir a agenda e calendário político dos respectivos partidos que as sustentam. Como tal, e por não os considerar verdadeiros candidatos presidenciais, não os dignificarei com uma análise das suas candidaturas (não) presidenciais.

Cândido Ferreira- não o conhecendo, este candidato fez questão de revelar toda o seu pedantismo ao gabar-se, pomposamente, no debate dos 9 candidatos de 19 de Janeiro que era ali o único que tratava por “tu” António Costa, expondo, dessa forma, uma mesquinhez de carácter tão pequena que não lá caberá a cruz do meu voto.

Henrique Neto – se Marcelo Rebelo de Sousa é o “grande magnânimo”, Henrique Neto assume, nestas presidenciais, o papel do “grande ressabiado” e qualquer candidatura a um serviço público, nascida e movida por um sentimento tão pequeno como o ressabiamento, está condenada ao fracasso.

Jorge Sequeira – o candidato do “Nuorte” marcou a sua candidatura com as piadas sexuais de mau gosto dirigidas a Marisa Matias…embora compreenda que uma piada sexual para ter piada tem, inevitavelmente, de ser de mau gosto e de achar que a ingénua incompetência de quem concebeu os infames cartazes de “Uma para Todos” ser merecedora de tais observações de promiscuidade, não quero correr o risco de, por um piropo mal direccionado à Sra. Merkel, ter a Alemanha a querer anexar-nos.

Paulo Morais – julgo sinceramente que o Sr. “Anti-Corrupção” está nesta campanha enganado…quando recebeu a Newsletter do “OfertaEmpregos” deve ter “clickado”, por engano, no link que dizia “Aceitam-se candidaturas a Presidente da República” quando o que queria mesmo era clicar no link ao lado “Procuram-se Inspectores da Polícia Judiciária”. Para que o seu engano não ganhe proporções grotescas, não me enganarei eu em votar nele.

Vitorino Silva - não votarei em Vitorino Silva para que não deixe existir o Tino de Rans, esse ser capaz de, numa linguagem tão popular e familiar, sintetizar cristalinamente a pobre e vazia campanha presidencial de 2016: “eu não venho para aqui para “intrigalhadas” e há uma parte do debate que não me interessa para nada…eu até estou para aqui a fazer bonequinhos.”

Maria de Belém – desde início, se houve candidato que inspirou o meu mais profundo distanciamento e indiferença, quase a raiar a repulsa, foi Maria de Belém; não sabia, no entanto, explicar porquê e tal sentimento edificava-se somente numa vaga intuição que associava esta figura a tudo o que de mais bafiento tem a política…sempre a vi como a candidata do “sistema”, seja lá o que raio é o “sistema”. No entanto, nunca conseguia substanciar esta minha vaga ideia em algo de concreto e tal inquietava-me…até que foram conhecidos os subscritores e “pedintes” da reposição das subvenções vitalícias e aí, aí tudo fez sentido. Maria de Belém, a candidata da “força do carácter”, revelou o seu verdadeiro carácter e a minha vaga intuição materializou-se neste corpo concreto de uma mulher que vive da política e para a política que a sirva a ela.


Sampaio de Nóvoa – é o candidato, pelo seu posicionamento ideológico, pelas ideias que defende e pela própria forma como nasceu e foi conduzida a sua candidatura que me poderia levar a não votar em branco; no entanto, e paradoxalmente, o seu principal “slogan” é a razão pela qual não votarei nele. Sampaio da Nóvoa apregoou, durante toda a campanha presidencial, que este é um tempo novo e que ele é o candidato desse mesmo tempo novo. Tem razão no primeiro predicado da frase anterior mas não a tem para o segundo…é de facto um tempo político novo o que vivemos mas é um tempo novo feito de grandes desafios e de grandes riscos (conforme referiu e bem o meu co-blogger Marcelino Cardoso em "Governo de Alto Risco") e que por isso mesmo necessita de um presidente experienciado politicamente, com traquejo e peso político. Não nos iludamos! Se quisermos, como eu quero, que este tempo novo continue e dure pelo menos uma legislatura, irão existir alturas em que será necessária a colaboração e consentimento do PSD, ignorar isso é ignorar que foi o PSD quem mais votos teve nas últimas legislativas; e para que isso possa acontecer, para que o PSD e os partidos que suportam o actual governo ajam responsavelmente com vista à harmonização deste novo tempo, é imprescindível um presidente com peso político incontestável e uma envergadura popular que o faça ser ouvido quer por uns quer por outros, um presidente com experiência neste tipo de negociações e conhecedor dos corredores onde acontece a “real politiks” e esse candidato não é Sampaio da Nóvoa…Não votarei em Sampaio da Nóvoa porque este é um tempo novo que não admite um presidente novato! 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Presidenciais 2016: Não votarei em Marcelo Rebelo de Sousa em NOME da Diferença…

Embora pareça estar a passar ao lado do mediatismo nacional, por motivos variadíssimos, a verdade é que estamos na iminência de escolher o chefe de Estado Maior e figura máxima da democracia para os próximos cinco complicados anos da vida dos portugueses. Na questão de saber quem será o sucessor do “cavaquismo”, que impregnou de sisudez parcial e muitas vezes irracional o Palácio de Belém, uma pergunta parece ser a fundamental – votar ou não votar em Marcelo Rebelo de Sousa?
No que ao vosso escriba diz respeito, a resposta à pergunta “shakespeariana” passa por não votar em Marcelo Rebelo de Sousa, resposta essa que é sustentada, como em qualquer bom drama novelesco (de que William Shakespeare é mestre), numa trilogia argumentativa que passo a expor:

1º Argumento – uma questão de poder
A candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa beneficia, na minha perspectiva, de uma ilegitimidade competitiva que coloca o candidato referido quinze anos de campanha à frente dos restantes candidatos no início desta corrida presidencial. Foi desde Maio de 2000 até ao anúncio da sua candidatura em 2015 (com algumas interrupções pelo meio) que Marcelo Rebelo de Sousa beneficiou de um espaço exclusivo de auto-promoção em horário nobre para, durante quinze anos, nas lições domingueiras do professor, nos instruir acerca da sua simpatia, a sua candura, a sua benevolência, o seu espírito energético e brincalhão mas sério e carregado de bom senso quando os temas o impunham…Durante 15 anos de campanha, Marcelo Rebelo de Sousa gerou empatia com a sua
simpatia e com o seu comentário brincalhão afagou os corações dos portugueses, conquistando-os; muitos dirão que tal se deve ao carisma e à própria personalidade contagiante do professor mas sejamos sérios, seria necessário ser-se desprovido de toda e qualquer personalidade e ser um insonso sensaborão de primeira (vide Aníbal Cavaco Silva) para em quinze anos de auto-promoção em espaço privilegiado para o efeito e sem qualquer contraditório ou contraponto, não conseguir gerar a popularidade suficiente traduzível nas sondagens presidenciais. O mais grave e o aspecto que torna este argumento uma razão para não votar em Marcelo Rebelo de Sousa é que esta ilegitimidade competitiva designa o poder dos meios de comunicação social em fazer e desfazer presidentes, em criar e destruir governantes, e um poder que influencia e perturba as escolhas democráticas decisivamente e que está entregue a interesses privados e particulares não sujeitos a sufrágio, apenas pode ser um poder abjecto e anti-democrático. E é exactamente por considerar que este poder dos meios de comunicação social na sua imiscuição na vida política é uma das principais ameaças à sanidade da democracia, que jamais votarei numa candidatura que é a personificação desse poder.

2º Argumento – uma questão de personalidade
O 2º argumento, de ordem mais pessoal, está relacionado com a personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa e sua pretensão à grande magnanimidade. Pessoalmente, irrita-me este tipo de pessoas que adjectivo de “grandes magnânimos” e que podem ser detectados quando, às perguntas “o que é que ouves?” ou “o que é que lês?” respondem, invariavelmente, “um pouco de tudo”, também conhecidos como os “grandes eclécticos”. Esta magnanimidade e eclectismo escondem falta de vinco na personalidade, falta de originalidade de espírito e falta de coragem em assumir ideias e posições que não estejam em conformidade como o consenso geral. Marcelo Rebelo de Sousa apelidou a sua candidatura como aquela defensora do consenso e de consensos e ele como o guardião do consenso geral; ora, eu não quero um presidente que seja defensor do consenso geral quando o consenso geral é mau, eu quero um presidente que rasgue o consenso quando o considerar nefasto para o bem-estar do povo que representa, e para isso preciso saber que ideias e posições um candidato presidencial defende e que o levarão a considerar um consenso geral benéfico ou prejudicial para o país que o elege, o que no caso do grande magnânimo Marcelo Rebelo de Sousa é impossível de escrutinar...ele que afinal já não é “anti-aborto”, é apenas “anti-duas ou três vírgulas no texto legislativo de despenalização do aborto”. Depois de um presidente que dizia uma coisa numa semana e o contrário na semana seguinte para dali um mês poder dizer ao país “eu bem avisei”, eu não quero um presidente que diga agora uma coisa para na semana seguinte dizer que não foi bem aquilo que disse para dali a cinco anos não ter de assumir a responsabilidade dos seus actos enquanto Presidente da República.

3º Argumento – uma questão identitária

Por fim, aquela que considero ser a principal razão, por mais profunda e enraizada ser, de não votar em Marcelo Rebelo de Sousa, o facto de este se apresentar e se chamar por três nomes, Marcelo Rebelo de Sousa, designando dessa forma uma ruptura identitária com a minha pessoa, que me impossibilita de alguma vez votar em alguém que ostente, na sua forma de apresentação pessoal, três nomes. Tendo terminado os últimos textos por mim postados citando outrem, permitam-me, para me justificar perante os mais curiosos acerca do motivo do meu “embirramento” com a questão dos três nomes, o pretensiosismo de me citar a mim mesmo, remetendo-os para o primeiro texto por mim escrito nesta escrivaninha:  Em NOME da Diferença

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Mensagem de Ano Novo: 12 passas políticas para 2016

Findo o ano de 2015, e depois de muito já ter dissertado acerca do que foi o passado político recente, caracterizado sobretudo pela emergência de um Capitalismo de Último Reduto já aqui devidamente caraterizado, julgo ser sadio, não só porque agora se inicia um novo ano mas também porque a este novo ano corresponde um novo momento e uma nova era política, centrar, quanto mais não seja por um “post”, o meu discurso no futuro e aproveitando a folia de “réveillon”, deixar os meus desejos para 2016, fazendo pois corresponder a cada passa (das 12 tradicionais de fim de ano) um desejo político.
1ª passa política – como primeiro e primário desejo para 2016, tenho de eleger o que considero ser o fenómeno de maior premência resolutiva, e que embora não totalmente político de resolução política carece – o fenómeno dos refugiados. Não se tratando de um fenómeno eminentemente político mas antes de cariz humanitário, a sua resolução e definição passam sobretudo por uma intervenção política e é sobre essa intervenção política que dedico a minha primeira passa política e que deixo o meu principal desejo e anseio político para 2016. Este desejo e anseio políticos constituem-se primeiramente que haja, ou passe a haver em 2016, uma consciencialização por parte dos actores políticos com responsabilidades na matéria, do que já aqui referi, ou seja, que este não é um fenómeno eminentemente político mas sim humanitário…E que a actividade política, ao contrário da sua tendência recente, deva servir causas humanitárias e submeter-se a estas e mediante estas recentrar o seu foco e prioridades. Já aqui tive oportunidade de dissertar de como esta filosofia de Capitalismo de Último Reduto subverteu a hierarquia de prioridades da actividade política (vide Capitalismo de Ultimo Reduto – o Grande Sequestrador) e essa subversão de prioridades e de submissão de valores éticos, humanitários e humanistas ao primado financeiro é, também na questão dos refugiados, uma manifestação latente. É pois meu principal desejo político para 2016 que a questão dos refugiados, com toda a tragédia humana que nos invade via noticiários e redes socias, seja suficiente para sensibilizar os actores políticos nela intervenientes a passarem, de uma vez por todas, a pautar a sua actividade e condução política sob a batuta de valores humanitários e éticos e não subordinada a valores financeiros e meramente políticos. É assim meu firme desejo para 2016 que EUA e Rússia deixem de condicionar o seu compromisso para com a questão síria à continuidade ou não de Bashar Al-Assad no poder e afirmem o seu compromisso inequívoco para com aqueles idosos, mulheres e crianças que arriscam a sua vida a fugir do fogo das armas que eles próprios venderam e que à custa das quais muito a sua economia prosperou. É meu firme desejo que a Europa deixe de condicionar a sua receptividade aos migrantes fugitivos da tirania a questões e possibilidades financeiras e afirme categoricamente que, para a Europa, a vida humana não tem valor e que receberá quantos fugitivos para cá quiserem vir (se num país tão pequeno como Portugal não há problema em enterrar 3 mil milhões de euros num banco tão pequeno como o BANIF, quão pequenez e mesquinhez é nesta Europa condicionar o apoio à vida humana a questões financeiras???).  É meu firme desejo para 2016 que aqueles que adulam Aristides Sousa Mendes (que espero ser toda a população portuguesa), tenham a sensatez de calar as suas reticências quanto à receptividade de fugitivos sírios. Infelizmente, nesta Europa de hoje, este meu principal desejo político para 2016 parece não passar de uma utopia política…Numa Europa onde aqueles que mais fazem na questão dos refugiados e que mais ardor humanitário colocam na condução da sua actividade política são ridicularizados, ostracizados, espezinhados, vilipendiados, humilhados e até ameaçados de expulsão por motivos meramente financeiros (vide Grécia) e aqueles que ameaçam construir muros fascistas para impedir a entrada de pessoas que fogem da miséria beligerante de que são vítimas humanas mas que têm um défice aceite por Bruxelas (e Berlim) nem de uma repreensão moral são alvo (vide Hungria) e numa Europa onde os países desenvolvidos e civilizados são aqueles que aprovam leis xenófobas (vide Dinamarca)…Nesta Europa, o meu principal desejo político para 2016 parece estar condenado a esfumar-se em utopia que os pragmáticos como Cavaco Silva não hesitarão em categorizar de devaneios esquerdistas.
2ª e restantes 10 passas políticas – depois da 1ª passa política e da difícil digestão de que revelou ser, fiquei enjoado e sem vontade de ingerir o que fosse mais no que a passas políticas diz respeito. Pensei até ingerir algumas seguintes e dedicá-las à irrevogabilidade da decisão da saída de Paulo Portas, ou do desfecho minimizador de perdas do Novo Banco ou da reversão de algumas privatizações lesadoras do contribuinte…Pensei em todas elas mas depois de ingerida a 1ª passa política, e face à dimensão dela (humana e humanitária), a ideia de ingerir 11 mais, pequenas e insignificantes quando comparadas, pareceu-me claramente nauseante pelo que decidi não as comer e guardá-las para 2016 na esperança remota de que, concretizado o meu primeiro desejo político, possa conhecer em 2016 em Portugal onze refugiados a quem entregarei de muito bom grado as minhas onze passas não comidas e os meus onze desejos políticos não formulados (com certeza os seus desejos políticos serão bem mais profundos, fundamentados e legítimos do que os meus).

“Tenho vergonha, enquanto membro desta liderança europeia, tanto pela incapacidade da Europa em dar resposta efectiva a este drama humano, como pelo nível do debate nas altas instâncias, em que cada um tenta passar a culpa para o outro.(…) Há muita hipocrisia e lágrimas de crocodilo a serem derramadas pelas crianças mortas nas costas do Egeu. Crianças mortas provocam sempre dor. Mas e as crianças que estão vivas e chegam aos milhares e ficam empilhadas nas ruas? Dessas ninguém gosta.(…) as ondas do Egeu não estão a afogar apenas os refugiados e as crianças, mas a própria civilização europeia”. (Alexis Tsipras, 30 de Outubro de 2015)