quinta-feira, 10 de novembro de 2016

E Trump é o novo líder do mundo "livre" e comandante supremo do mais avançado exército da história da Humanidade!

Quase todos os cronistas, analistas, politólogos etc etc tentam hoje forjar uma teoria socio-cultural, socio-economica, psicanalítica, filosófica, demográfica ou somente sociológica capaz de explicar e fundamentar a eleição de Donald Trump para Presidente dos EUA.

Eu próprio julgo também já o ter feito, antecipadamente, quando dissertei sobre a A democracia da ignorância.

Mas agora é hora de olhar o futuro e nesse olhar tentar encontrar o optimismo que os apoiantes de Trump parecem nutrir..Talvez seja apenas uma questão de perspectiva...Tentemos pois, a bem da democracia, tentar entender a perspectiva dos apoiantes de simpatizantes de Trump, deixando um video pedagógico para o efeito:


sábado, 29 de outubro de 2016

O elogio de Schäuble à Geringonça!

Já tive oportunidade de, em textos anteriores, ilustrar o que julgo ser a visão para Europa, e o trilho que pretendem traçar rumo a essa visão, que os acuais decisores políticos europeus nutrem, cultivam e defendem acerrimamente.

Constituindo-se o PPE a família política que manda na Europa actualmente, constituída pelos seus tecnocratas de Bruxelas a mando da Ecofin de Schäuble e “familiares”, entenda-se da mesma família política, cedo se percebeu qual a ideia desta “família” para a sua Europa. Agastados com os “gaps” de produtividade entre os países da periferia europeia e os da Europa Central perpetuadores, face à impossibilidade de “manietação” cambial e monetária por contrária serem aos interesses do franco alemão e outras moedas que tal, de desequilíbrios financeiros cada vez menos bem recebidos pelos mercados financeiros, a actual elite governativa europeia esboçou um modelo de desenvolvimento europeu assente numa Europa a duas velocidades.

Esta Europa a duas velocidades caracteriza-se pela coexistência, dentro do espaço europeu, de dois modelos de desenvolvimento económico distintos; por um lado um modelo de desenvolvimento económico para os países do centro e norte da Europa e outro para os países da periferia. Se para os países do centro e do norte da Europa é defendido um modelo de competitividade assente em actividades de elevado valor acrescentado necessitadas de elevados índices de produtividade resultando, por isso, em níveis remuneratórios elevados e consequentes elevados poderes de compra e elevados níveis de vida para a população que se constitui a mão-de-obra desses países, para os países da periferia passou a ser defendido, por este PPE neo-liberal que manda actualmente na Europa, um modelo de desenvolvimento económico suportado por uma competitividade derivada da desvalorização do factor trabalho. Não possuindo os índices de produtividade dos países do centro e do norte, a estes países da periferia resta serem competitivos por via de praticarem níveis salariais mais baixos, degenerando num modelo de crescimento assente na desvalorização e precarização do factor trabalho conducente a mais baixos poderes de compra e à perda de nível e qualidade de vida da população desses países que constituem a sua mão-de-obra.

Esta é, segundo o ponto de vista da elite governativa europeia actual, a única solução viável de subsistência e sobrevivência dos países da periferia europeia. Assim, é com naturalidade que os representantes desta visão da Europa defendam, aplaudam, recomendem e receitem até medidas e políticas que conduzam à concretização dessa visão… Tudo o que contribua para mudanças estruturais no mercado laboral dos países da periferia no sentido da desvalorização do factor trabalho e à sua cada vez mais submissa dependência do factor capital (sob a forma sobretudo de Investimento Estrangeiro) é defendido, aplaudido e recomendado por estes senhores que pensam mandar e desmandar na Europa. É também com naturalidade que quando surgem agentes políticos com visões diferentes da destes, por exemplo governos de países periféricos que defendam para os seus países modelos de crescimento semelhantes aos do centro e Norte da Europa, reclamando políticas de educação, formação e qualificação susceptíveis de dotar as suas populações de índices de produtividade capazes de substanciar tais modelos de crescimento virtuoso e recusando medidas que visem somente a desvalorização e precarização do factor trabalho “substanciadoras” do modelo de crescimento pernicioso que lhes querem impor por conducentes à precarização das condições de vida da população que constitui esse factor trabalho serem, aí estes mesmos senhores reagem de forma antagónica e ao invés de aplausos e lisonjas, reagem com criticismo, reprovação e até provocação.


Assim, quando este “gang” de lobos de sobrenome Schäuble, que é o principal rosto sinistro da defesa e da imposição desta Europa a duas velocidades, refere que “Portugal estava a ser muito bem sucedido até ao novo Governo", tal afirmação apenas poderá ser percepcionada, por quem se preocupa com a defesa das condições de vida e do bem-estar da população portuguesa, como um enorme elogio à actual solução governativa, carinhosamente apelidada de “Geringonça”, e uma duríssima ofensa e crítica à anterior solução governativa, pretensiosamente auto-denominada de “Portugal à Frente”

domingo, 23 de outubro de 2016

Guterres à pesca de cherne em mar de tubarões…

Paradoxalmente, num país em crise financeira, económica e social, têm, nos últimos tempos, emergido grandes nomes para a ribalta da política internacional. Políticos que internamente não serviram para mudar a inevitabilidade da crise portuguesa, destacam-se agora em cargos de grande visibilidade no plano internacional. Vítor Constâncio como vice-presidente do Banco Central Europeu, António Guterres como Secetário-Geral da ONU e Durão Barroso como presidente não-executivo da Goldman Sachs (depois de já ter presidido à Comissão Europeia) são os casos mais sonantes. Os dois últimos, por terem já cruzado os seus caminhos em tempos idos, voltam a contar uma história interessante e reveladora se analisarmos o paralelismo dos seus trajectos políticos.

Tendo António Guterres ascendido ao mais alto cargo da diplomacia internacional, o de Secretário-Geral das Nações Unidas, releva saber, para o desempenho do seu cargo, qual o estado dessas nações unidas…? Que mundo vai António Guterres encontrar e nesse mundo quais os desafios prementes que lhe se apresentarão no caminho da sua missão? Sendo a sua missão a substância da sua nomeação, que desafios se colocarão ao ex-comissário para os Refugiados para levar a sua avante?

A nomeação de António Guterres para Secretário-Geral da ONU obedeceu essencialmente ao consenso de que o maior desafio que se coloca ao mundo actual e que de resolução política carece diz respeito à crise dos Refugiados. Quando se tratou de escolher o representante das nações unidas para lidar com este desafio do mundo actual, a questão que presidiu à escolha e que resultou na unanimidade da escolha de Guterres terá sido: quem será dos candidatos o mais competente para lidar com esta temática? A experiência acumulada de António Guterres enquanto alto comissário da ONU forneceu a resposta fácil que degenerou na supracitada unanimidade. Tem-se o homem certo para a missão certa na altura certa! Só não temos o mundo certo…

António Guterres, na sua missão humanitária e idealista esbarrará inevitavelmente naquilo que serão as pretensões e interesses de quem realmente manda no mundo. O que poderá fazer António Guterres quando as medidas que quiser implementar com vista à resolução humanitária da crise dos refugiados forem contrárias ao interesse material e estratégico dos países integrantes do Conselho de Segurança da ONU? O que poderá fazer António Guterres quando quiser convencer países e nações (das unidas a que preside) a empreender iniciativas que sejam contrárias aos interesses dos países do Conselho de Segurança da ONU, de quem dependem económica, financeira e militarmente? Muito pouco ou quase nada…Neste nosso mundo capitalista de último reduto, poderá fazer mais Durão Barroso enquanto “chairman” da maior entidade financeira mundial do que António Guterres enquanto líder da maior entidade diplomática mundial. Será muito mais influente numa mesa de negociações com os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança da ONU ou o G20 (os tubarões do mar diplomático em que Guterres se vê agora forçado a nadar) Durão Barroso do que António Guterres. Terá, neste mundo nosso, Durão Barroso muito mais “leverage” negocial para com esses países do que António Guterres, por aquilo que ambos representam; enquanto que Durão Barroso poderá negociar com esses países condições de financiamento, presença e intervenções dominantes em mercados financeiros mundiais capazes de conferir posições dominantes na negociata mundial, representando assim uma autoridade financeira e materialista, António Guterres apenas poderá apelar ao respeito pelos valores e Direitos Humanos, cartilha cuja defesa e propriedade são da entidade que lidera com o poder que lhe é conferido pelos países do mundo, representando desta forma uma autoridade moral e ética…E entre uma autoridade financeira e material e uma autoridade moral e ética, mais vale António Guterres correr a pedir ajuda a Durão Barroso se quiser mudar o quer que seja neste vosso mundo de último reduto.

E é neste trajecto destes dois políticos nacionais, que se conta muita da verdade do mundo actual…António Guterres foi um político que por altos valores éticos e de dignidade política renunciou ao seu cargo de primeiro-ministro, quando pressentindo o descontentamento de quem o elegeu com a sua governação pôs o seu cargo à disposição, não se escusando no entanto de ir à luta política…Foi-o e perdeu com Durão Barroso que, tendo assumido um compromisso com o eleitorado português de o governar por 4 anos, assim que teve uma melhor oportunidade de progressão na carreira, quebrou esse compromisso fundamental com o povo que o elegeu, fazendo da sua candidatura a primeiro-ministro português uma monumental mentira. Catorze anos depois, Durão Barroso atingiu o pináculo da sua carreira de oportunismo e sagacidade política enquanto que António Guterres alcançou o ponto mais alto da sua carreira de idealismo e integridade política e o facto de ter de ser este último a pedir favores ao primeiro se quiser resultados no desempenho da sua função, diz muito do mundo em que vivemos.


E é por ter enorme respeito pelos valores e ideais emanados do percurso político de António Guterres mas também a consciência deste mundo em que vivemos que me resta desejar a maior sorte a António Guterres e que Deus o acompanhe! Mas como diria Tom Waits:          

sábado, 15 de outubro de 2016

O nosso mundo “Trumperiano”

Poucas candidaturas presidenciais e iniciativas políticas têm o condão de, numa forma tão cristalina e reveladora, reflectir a realidade e o mundo em que se propagam como a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos da América.

A popularidade granjeada e conquistada pela ignorância, pela estupidez, pelo preconceito, pela vaidade narcisista e pela ganância avassaladora, escamoteadas por um moralismo hipócrita e um puritanismo demagogo emanados de um catolicismo torpe e fanático, é uma representação perfeita deste mundo em que vivemos e dos valores e princípios que lhe subjazem.

Quando Trump ameaça construir um muro na fronteira dos EUA com o México para impedir os mexicanos, a quem apelidou de ladrões e violadores, entrar nos EUA, Trump sobe nas intenções de voto e na simpatia e empatia geradas com o seu eleitorado.

Quando Trump exige a Barack Obama que exiba a sua certidão de nascimento para provar que nasceu nos EUA só porque este último é preto e tem as orelhas grandes, Trump sobe nas intenções de voto e na simpatia e empatia geradas com o seu eleitorado.

Quando Trump, que defende a produção e os produtos norte-americanos, é confrontado com o facto de ter feito fortuna com produtos fabricados por mão-de-obra infantil explorada no Vietname, Tailândia, Cambodja etc., Trump sobe nas intenções de voto e na simpatia e empatia geradas com o seu eleitorado.

Quando Trump, que se gaba de ser um dos homens mais ricos dos Estados Unidos e faz da ostentação dessa riqueza um estilo de vida, admite não pagar impostos há mais de 20 anos, Trump sobe nas intenções de voto e na simpatia e empatia geradas com o seu eleitorado.

Quando Trump vê exposta uma conversa privada em que, num tom jocoso, se vangloria dos seus avanços sexistas, numa demonstração de fanfarronice machista típica daqueles privilegiados que se habituaram a ter o que querem, quando querem e como querem sem nunca olharem a meios para o atingir e saindo sempre impunes não obstante os meios predatórios empregues, Trump sobe nas intenções de voto e na simpatia e empatia geradas com o seu eleitorado.

Nesta ascensão de Trump encontra-se muito da genuína génese das pessoas que fazem deste um mundo “Trumperiano” e que adoraria ilustrar com uma citação do mais recente nóbel da Literatura mas que, por falta de conhecimento aprofundado da sua obra literária cantada, não o conseguirei fazer…Ao invés, e por também achar que mais se apropria e adequa ao pretendido, deixarei essa ilustração citada a cargo, não do respeitadíssimo e venerado cantautor mas do bêbedo e putanheiro poeta Charles Bukowski:  

   

domingo, 11 de setembro de 2016

A força das circunstâncias e a circunstância do mundo actual: Refugiados “Breaking Bad”

Já defendi, em textos anteriores, o que julgo ser a necessidade de intercalar a típica abordagem financeira e economicista a fenómenos da nossa realidade com uma abordagem filosófica e humanista; referi essa necessidade quando abordei as questões do Terrorismo e dos Refugiados. E é no âmbito dessa crença que hoje, para vos falar novamente de Refugiados e Terrorismo, me auxiliarei, não de um economista ou de um politólogo mas de um argumentista de televisão, Vince Gilligan, criador da minha série favorita “Breaking Bad”.

Em “Breaking Bad”, Vince Gilligan conta-nos a história de um professor de Química do Secundário, de meia-idade a quem é diagnosticado cancro de pulmão, inoperável e com uma validade de 2 anos. Walter White, o professor, é pai de um adolescente de 15 anos com doença de Paralisia de Bell e encontra-se a aguardar um segundo filho, uma menina que se chamará Holly, e que não conhecerá o pai por mais de 2 anos. Com um seguro de saúde miserável, num país que não sabe o que é o Serviço Nacional de Saúde, Walter White é forçado pela esposa grávida a aceitar uma plano de tratamento melhor mas que não é coberto pelo seu seguro de professor. Mesmo trabalhando horas extra numa oficina de lavagem de carros onde, para escárnio adolescente, lava os CHEVROLET dos seus alunos, Walter White não consegue reunir os fundos para pagar o tratamento de qualidade que a sua mulher o obriga a atender. Não só isso mas sente ainda estar a consumir, inutilmente, recursos que deveriam ser aplicados no futuro dos filhos que deixará órfãos. A esposa pede para que o seu marido aceite a ajuda oferecida por ex-colegas de faculdade que fizeram fortuna com empresas de investigação química e para quem pagar um tratamento oncológico de top seria uma mera ninharia, afinal no mundo em que vivemos é de incomparável mais-valia quem investe capital financeiro numa empresa do que quem investe capital humano na educação e formação dos homens e mulheres de amanhã. Estranha hierarquização de valores esta…E é também por causa desta hierarquia de valores que vigora neste mundo nosso, a que chamamos desenvolvido, que Walter White preferirá a alternativa á solidariedade e à compaixão ofertadas e enveredará pela via solitária, orgulhosa e egotística da auto-suficiência. É que o individualismo “smithiano” não impacta somente na organização socio-económica da sociedade, ele deturpa e distorce os valores e princípios em que essa mesma sociedade se substancia e entre os sentimentos de piedade e compaixão e os de repulsa e ódio, o indivíduo contemporâneo optará, regra geral, ser alvo dos segundos. Assim aconteceu com Walter White, estereotipo do homem actual, que ao invés de aceitar a generosidade e caridade dos seus amigos de faculdade com mais sucesso individual do que ele, optou, para fazer face às circunstâncias da sua vida, por “cozinhar” metanfetaminas e tornar-se traficante de droga; preferiu a repulsa e o ódio à compaixão e piedade. E é enquanto barão da droga que Walter White não só ganhará o dinheiro suficiente para o seu tratamento oncológico como em dois anos de vida criminosa ganhará o suficiente para garantir o futuro financeiro dos seus filhos, algo que não conseguiria com uma vida inteira e leccionar química numa escola secundária…É a vender droga que mata e traz miséria e a matar mesmo que experiencia comportamentos de respeito e reverência à sua pessoa quando até então, enquanto mero professor de secundário, o máximo a que aspirara fora à condescendência dos outros. Walter White transforma-se, sob a força das circunstâncias da sua vida e sob a circunstância dos valores e princípios que é o mundo actual, num traficante de droga, homicida e criminoso e nós, espectadores deste mundo actual, compreendemos, empatizamos e vangloriamos até essa transformação. Fazemo-lo porque compreendemos a motivação circunstancial que lhe antecede e sob esta tabela de valores que vigora nesta Babel capitalista, quem pode não sentir que faria o mesmo que Walter White fez? Com um filho de 15 anos, uma bebé a caminho, diagnosticado cancro e dois anos mais de vida, quem não compreende a opção por um caminho destrutivo de revolta auto-suficiência e afirmação individualista? Todos nós o compreendemos e nos identificamos com ele e com as suas escolhas, e daí também o sucesso retumbante da série televisiva…

Mas este é um espaço de debate político e não crítica televisiva. Extrapolando então para a nossa realidade política e incidindo sobre o fenómeno de resolução política que julgo ser o mais premente da actualidade, qual o contributo de Vince Gilligan para a questão e crise dos refugiados. O seu contributo consiste em ter conseguido, na sua série “Braking Bad”, estabelecer, magistralmente, um nexo de causalidade entre as circunstâncias do homem actual e o seu comportamento e quando pensamos nos refugiados e aplicamos esse nexo de causalidade, somos forçados a perguntar: O que farão estas crianças, que não morrendo com as balas na Síria nem afogadas no mar Egeu, são atiradas para campos de miséria onde em condições desumanas são forçadas e definhar por terem ousado fugir da guerra? O que acontecerá a estas crianças que se vêem forçadas a prostituir para fugir destes campos refugiados do humanismo? A opção por uma via de revolta auto-suficiência ao invés da piedade dos seus carrascos, parece-me uma resposta óbvia e para a grande maioria delas a via da afirmação do seu individualismo, destratado e espezinhado enquanto crianças, esgotar-se-á na sua opção pelo terrorismo, cujos sentimentos de ódio e repulsa preferirão aos de piedade e compaixão daqueles a quem nunca esquecerão o desprezo e indiferença de quando eram frágeis e vulneráveis. Pergunto com quantas destas crianças quando, daqui a 15/20 anos fizerem explodir um centro comercial e ou ignitarem uma bomba numa qualquer estação de metro europeia, nós nos empatizaremos? Com quantos delas nos identificaremos? Quantas delas vangloriaremos quando passarem nos noticiários as consequências macabras das circunstâncias das suas vidas nesta circunstância que é o mundo actual? Sou levado a crer que os futuros eventuais autores desses atentados terroristas não terão a sua cara estampada em tantas t-shirts ou canecas de café como Heisenberg, a não ser que algum realizador de cinema se lembre de recriar no grande ecrã das salas de cinema as circunstâncias das suas vidas, esquecidas nos pequenos ecrãs dos noticiários das nossas salas de estar.

Nota positiva ao nosso primeiro-ministro, que levou para a Cimeira da periferia (convidado por Alexis Tsipras), propostas de medidas e políticas para a integração não só humanitária mas humana dos refugiados. Poderia ter escolhido uma miríade de temas e um sem fim de propostas a levar a debate neste pequenos concílio…Talvez medidas anti-austeritárias que afectam sobretudo os países a participar nesta reunião…Mas não, optou por levar propostas para a integração dos refugiados e ao fazê-lo define claramente o que para ele deverá ser a prioridade da actuação política, que entre uma crise financeira e uma crise humana deverá recair primeiramente sobra a que afecta a humanidade de milhões de pessoas. Com isso identifico-me, empatizo e vanglorio!



“Chemistry is the study of matter but I prefer to see it as the study o change…”, Walter White, Breaking Bad

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Idealismo VS Pragmatismo

Na minha tentativa de vos desenhar o rosto, o corpo e os membros do Capitalismo de Último Reduto que é este Frankenstein da sociedade contemporânea e “desenvolvida”, esbocei os seus traços marcantes, nomeadamente a sua génese e maculada concepção, a sua manifestação e exacerbação e a sua alma-mater aglutinadora de uma lógica irresistível. Em todos esses traços, como um cunho de artista de génio, existe a forma única de “pincelar”, de fazer tocar o pincel na tela que diferencia aquele artista de todos outros e o torna único. Assim é com o Capitalismo de Último Reduto. O Capitalismo de Último Reduto é o artista maior da era contemporânea; pega no seu pincel que é a Finança e esboça na tela que é o mundo actual a sua obra-prima e o traço único que o diferencia, a forma de fazer tocar o pincel na tela que o torna único e o diferencia dos demais é o pragmatismo.

Se a submissão ao primado financeiro se constitui a filosofia, a matriz e a alma do Capitalismo de Último Reduto, o pragmatismo assume-se como a lógica dessa filosofia, a sequência da matriz e a religiosidade dessa alma pragmática do Capitalismo de Último Reduto.

A elite política da actualidade não passa de praticantes mais ou menos forçados deste pragmatismo que condena a sociedade contemporânea à reclusão neste Castelo Kafkiano em que vivemos. Se no Castelo reina a abundância e prosperidade vivemos felizes e contentes, se nele passa a grassar a fome e a miséria, protestamos barafustamos e maldizemos mas nunca ousamos abandonar o Castelo e nunca ousamos abandonar o Castelo porque pragmaticamente sabemos, porque nos foi dito, que fora dele existe um mundo selvagem de criaturas ferozes que nos despedaçaria caso ousássemos pôr um pé fora do Castelo. Assim é o Mundo Actual, onde o pragmatismo parece ter subjugado o idealismo a uma quarentena indefinida. Os nossos políticos conduzem a política do “tem de ser” e o aparatos mediático que à volta destes gravita (órgãos de comunicação social, comentadores e analistas políticos e fazedores de opinião de todo o género, etc.) esforça-se para nos dizer que se assim não for vem a calamidade, o apocalipse, o Mundo Selvagem fora do Castelo.

São várias as manifestações na realidade política que atestam a supressão do idealismo pelo pragmatismo e o reino incontestado deste último como religião dominante e unitária na condução política deste Capitalismo de Último Reduto, que é o que governa as nossas vidas actuais. Destas, referirei apenas duas para que, a título de exemplo, melhor se perceba a ideia que estou a tentar veicular.

Barack Obama e a presidência dos EUA - Barack Obama conseguiu a eleição para presidente dos Estados Unidos da América no seguimento de uma campanha movida, alimentada e exponenciada por um Idealismo que culminou no seu slogan vitorioso “Yes We Can” (estaria Barack Obama a dizer que sim, que conseguiríamos abandonar o Castelo pragmático e burocrático em que livremente estamos presos?). O idealismo revelado associado à inegável capacidade retórica e carisma de Barack Obama valeram-lhe inclusive, antes de qualquer acção presidencial, o Prémio Nobel da Paz, tal não fora a capacidade mobilizadora do Idealismo pregado. No entanto, abandonado o palanque de discursos e sentado na Casa Branca, cedo o Obama idealista cedeu lugar ao Obama pragmático e apesar de alguns aspectos positivos a nível doméstico, como a implementação de um Serviço Nacional de Saúde, a verdade é que os dois mandatos de Obama emanam do manual típico da política do “tem de ser”, senão vejamos:
- Wall Street e a Crise Financeira de 2008: O Barack Obama campanhista e idealista era duro com as libertinagens e devaneios destes banqueiros de Investimento desregulados e gananciosos, prometendo punições duras para com estes e políticas que garantissem que tais acções alimentadoras desta ganância destruidora nunca mais voltassem a ser possíveis no futuro, fazendo alinhar as sua posição com a de um dos mais severos e duros críticos de Wall-Street, Paul Volcker, que muitos acreditavam ser o próximo Secretário do Tesouro caso Obama ganhasse as eleições presidenciais. Já o Barack Obama presidente e pragmático, promoveu uma reunião amigável entre os maiores banqueiros de “Wall-Steet”, onde ficou decidido amigavelmente que nenhuma punição deveria ser aplicada aos senhores de Wall-Street e que, ao invés, seriam ainda libertados mais fundos estatais se destes os feudais de Wall-Street necessitassem; a reunião foi promovida pelo novo Secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anteriormente presidente da Reserva Federal de Nova Iorque e um dos poucos defensores dos banqueiros de Wall-Street aquando da crise financeira. Porquê? Porquê esta mudança? Confrontado com a crise económica que grassava nos EUA e a necessidade imperiosa de uma retoma económica, Obama sabia e foi-lhe feito saber que tal retoma e recuperação não seriam possíveis sem um sector financeiro forte e saudável, pelo que punir e ostracizar esse mesmo sector seria contraproducentes para a pretendida retoma económica. Dividido entre fazer o deveria ser feito e o que teria de ser feito, Obama optou pelo que teria de ser feito para que a economia recuperasse, a sangria de empregos estancasse, e os trabalhadores norte-americanos voltassem a conseguir pôr pão em cima da mesa das suas famílias. Fez-se o que tinha de ser feito, deixou-se por fazer o que deveria ter sido feito.
- Guantanamo e o Terrorismo: o Barack Obama campanhista e idealista prometeu encerrar a Prisão de Guantanamo, que considerava ser uma mancha no rosto dos EUA, revelando que a luta contra o terrorismo não poderia ser feita a qualquer custo e que se assim fosse, a batalha contra esse terrorismo estaria à partida perdida, pelo simples facto que o Terrorismo conseguira comprometer e corromper os valores, princípios e formas de actuação das sociedades desenvolvidas. Já o Barack Obama presidente e pragmático não só não encerrou Guantanamo como vai para a história como o grande impulsionador na utilização de “drones”, licença para matar à distância, na luta contra o terrorismo. Porquê? Porquê esta mudança? Ao Obama recto dos palanques de discurso, foram entregues documentos que provavam A + B que os interrogatórios conduzidos em Guantanamo providenciavam a recolha de informação que impossibilitava a concretização de inúmeros atentados terroristas; foi ainda feito ver ao presidente americano que a utilização maciça de “drones” seria a forma de efectuar raides de combate ao terrorismo que menos casualidades humanas (“human casualties”, mortes de humanos) provocaria. Sentado agora na Sala Oval, a rectidão de Obama cedeu a uma curvatura de comprometimento com o que teria de ser feito para salvar vidas humanas. Fez-se o que tinha de ser feito, deixou-se por fazer o que deveria ter sido feito.  

 Alexis Tsipras e a Crise Grega – mergulhada numa profunda Crise Financeira, a Grécia, bastião pioneiro da democracia, via-se agora ostracizada, humilhada e vilipendiada pelos seus “parceiros” europeus que desta exigiam medidas atentatórias da dignidade humana em ordem a libertar fundos para satisfazer o seu serviço de dívida, em grande parte respeitante a credores que são senão grandes Entidades Financeiras responsáveis pelo início da crise que agora assolava a Grécia. Fartos destes abomináveis insultos à sua dignidade, o povo grego escolheu para seu líder o líder idealista do Syriza, Alexis Tsipras, que prometera fazer frente ao “bullying” da União Europeia e a estes bater o pé. O idealista Alexis Tsipras, já presidente, e fazendo jus ao legado democrático do país que representa, marcou referendo para perguntar ao seu povo se deveriam ou não assinar o acordo das instituições burocráticas ditadoras da austeridade vivida na Europa, o que no fundo equivalia perguntar, face às reacções chantagista e condicionadoras da União Europeia a este referendo, se os gregos pretendiam ou não continuar na União Europeia. Contados os votos, mais de 60% do povo grego corroborou o idealismo do seu líder e disse NÃO às pretensões austeritárias da Europa. Pensou-se que seria desta que veríamos no cenário político mundial o idealismo sobrepor-se ao pragmatismo; existia um líder idealista de um partido idealista e com o apoio maioritário do seu povo…Desconfundamo-nos! Depois de vários apelos ao seu pragmatismo, que incluiu, inclusive, um telefonema do ex-idealista Barack Obama, Alexis Tsipras lá cedeu e na sua cedência ao pragmatismo, mandou embora quem persistia no seu idealismo (vide Yanis Varoufakis), convocou eleições antecipadas, reformulou o seu partido de extrema para moderado e aplicou austeridade, a acordada e a não acordada? Porquê? Porquê esta mudança? Ao idealista Alexis Tsipras foi feito ver o que a não aceitação das condições de resgate acarretaria para o povo grego; a saída da União Europeia e o fim do apoio encapotado Banco Central Europeu significariam o colapso o sector financeiro grego que degeneraria num colapso económico da Grécia, que resultaria por seu lado na pobreza, na fome e na miséria do povo grego e foi assim que o já pragmático Alexis Tsipras fez o que tinha de ser feito. Fez-se o que tinha de ser feito, deixou-se por fazer o que deveria ter sido feito. 


Embora a adopção do pragmatismo em detrimento do idealismo pareça ser, face aos exemplos supra referidos, inteiramente justificados, dever-se-á olhar para o quadro maior que é a Obra do Capitalismo de Último Reduto e não olhar somente para traços e esboços do mesmo, libertando-nos dos grilhões desta lógica sequestradora e pragmática para assim com maior isenção se poder apreciar se esta sobreposição do pragmatismo face ao idealismo é realmente virtuosa ou viciosa. Para o fazer
dever-se-á perguntar que mundo é este, que obra é esta que está ser pintada com pinceladas de pragmatismo? É uma obra boa, agradável ou, ao invés, causa desconforto, insatisfação, é uma obra má? A generalidade das pessoas, que não são tão parvas como se possa supor, parece ter encontrado a resposta e a votação constante em candidatos que fazem do idealismo a sua retórica é demonstração dessa resposta. O problema consiste no facto desses candidatos idealistas, quando confrontados com a máquina burocrática e tecnocrata do poder, se transformarem invariavelmente em líderes pragmáticos.

sábado, 30 de julho de 2016

Auschwitz XXI

No outro dia visitei Auschwitz.

Era uma quinta feira de manhã nebulosa quando a carrinha Mercedes preta de vidros esfumados parou junto ao hotel onde me hospedara para recolher os hóspedes deste interessados em nesse dia visitarem o antigo campo de concentração nazi. Tendo entrado quatro pessoas no dito veículo de marca germânica, dois casais de idade grisalha que se encontravam hospedados no Hotel” Kossak”, dirigi-me ao condutor do mesmo questionando-o se aquele seria o veículo que me conduziria a Auschwitz, ao que me respondeu que não, que dali seriam apenas quatro pessoas a transportar. Após consultar com a recepcionista do hotel e desta ter confrontado o motorista da carrinha, parecia que afinal eram cinco os hóspedes do Hotel “Kossak” a visitarem Auschwitz nesse dia. Foi então que o motorista do Mercedes, loiro de olhos claros com uma barbita imberbe de 4 dias, me convidou a sentar à frente, ao seu lado no lugar de passageiro, informando que faltaria somente passar por mais um hotel antes de rumarmos ao destino pago da nossa romaria. O carro estava já praticamente cheio de visitantes turistas de outros hotéis de Cracóvia. Tendo recolhido os últimos turistas a transportar o nosso guia automobilizado, inseriu no sistema audiovisual do automóvel um DVD com um documentário sobre Auschwitz. E foi assim, entre relatos de sobreviventes de Auschwitz entrecortados com gargalhadas do condutor que a meu lado amiúde ria e barafustava para o seu telemóvel, que cheguei a Auschwitz.

Chegado a Auschwitz, a quantidade de autocarros turísticos estacionados e a quantidade de máquinas fotográficas pendendo de pescoços escaldados de vermelhões típicos de turistas incautos, fez-me questionar se não estaria numa qualquer Disneylândia, uma Disneylândia negra e macabra, que atrai tanto como a colorida e alegre em Paris. Contornando a enorme fila para a entrada de Auschwitz I, afinal nós que pagámos uma visita com guia parecíamos ter mais direito a visitar o macabro do que os outros que desembolsaram menos Zlotys, fomos apresentados pelo nosso condutor àquela que seria a nossa guia para o dia, que nos ofereceu uns “phones” através dos quais, após colocados nos nossos ouvidos ávidos de turistas, poderíamos ouvir todas as indicações, explicações, contextualizações e peculiaridades com que a nossa guia nos guiaria por Auschwitz. Foi-nos explicado que este era Auschwitz I, o primeiro existente do enorme complexo de Auschwitz e o primeiro a ser usado e aproveitado pelos nazis para aprisionamento dos trabalhadores forçados que ali morreram ou trabalharam até morrer; a visita a Auschwitz II – Birkenau (o Auschwitz que estamos habituados a ver nas televisões e nos filmes da 2ª Guerra Mundial, e portanto a grande atracção turística de Auschwitz) ficaria para a parte da tarde. Por ora visitaríamos este complexo que fora o primeiros a ser usado para extermínio em massa de judeus, entre outros.

À entrada de Auschwitz I, somos agraciados com a placa de boas vindas onde se lê “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”). Ao longo dos vários edifícios protegidos por arame farpado electrificado vamos sendo confrontados com os vários episódios que compõem esta verdadeira narrativa do mal…Por entre o trabalho escravo, o tratamento desumano, as torturas e a matança em massa, jamais me esquecerei da fotografia de um menino de 2 anos alvo das experimentações do Dr. Josefe Mengele, também conhecido por Anjo da Morte ou Dr. Morte. Nessa foto, a criança, claramente desnutrida e maltratada, não grita, não berra nem se desfaz num esgar de dor…Não, essa criança limita-se a, com uma única lágrima vertida no seu rosto, olhar-nos numa contemplação onde revela o fim de tudo, esclarecendo-nos com o seu olhar a possibilidade infinita da maldade e crueldade humanas. Nessa mesma sala onde o olhar dessa criança “tratada” pelo Dr. Morte matou algo em mim que jamais conseguirei ressuscitar, encontrava-se em pessoa uma sobrevivente de Auschwitz; sentando-se ao lado de uma foto sua de quando tinha dez anos, explicou-nos aquela foto, dizendo que foi tirada pelo exército vermelho no dia seguinte à libertação e de como estes a tinham feito vestir o fato de prisioneira para as referidas fotos, mesmo referindo que as crianças não andavam vestidas como prisoneiras. Na foto, pousava com a sua irmã gémea (os alvos das experimentações do Anjo da Morte eram preferencialmente gémeos, dos quais o Dr. Mengele tentava apreender o segredo genético para a reprodução em massa, o qual replicados ao povo germânico, potenciaria a desejada repopulação avassaladora da raça ariana). Depois de contar alguns aspectos daqueles nove peculiares meses da sua infância, esta senhora octogenária surpreendeu ao revelar que tinha perdoado os nazis, mas que o havia feito por ela, não por eles…De seguida, e para gáudio de muitos dos turistas do macabro que comigo partilharam esta visita, encaminhámo-nos para a primeira câmara de gás a ser usada na matança em massa perpetrada pelos alemães da década de 40. Foi, a seguir à foto atrás mencionada, o segundo momento a me causar maior impressão nesta visita a Auschwitz; pisar aquele chão, aquele mesmo chão onde há cerca de 75 anos pessoas inocentes, alheias ao facto de ali estarem nuas com tanta outra gente, com os seus filhos bebés ao colo e olhar para cima e ver as aberturas por onde era libertado o infame gás, é uma sensação indescritível, uma azia e apatia sentimental que procura desesperadamente no relato que nos entra pelos ouvidos qualquer indício qualquer coisa que atenue aquele horror com que se é confrontado mas que nada encontra a não ser mais detalhes da ilustração da fealdade humana. À saída do referido campo de gás, é-nos impossível não regozijar quando a guia indica que ali, mesmo à frente do campo que tanta gente matou, foi enforcado após condenado o primeiro governador de Auschwitz Rudolf Höß.

Terminada a primeira parta da visita, era agora hora de rumar à nossa carrinha que nos transportaria para a segunda parta da visita, a grande atracção “Auschwitz II – Birkenau”. Antes, tive tempo ainda para engolir o meu almoço, um cachorro quente adquirido na barraca de Kebab á frente do hotel donde partira, prevenido que estava para os preços turísticos de Auschwitz.

Chegados a Birkenau, é impossível ficar indiferente à sua entrada icónica, com o portão guardado por vários pontos de vigília e ao lado a entrada para os comboios que de toda a Europa chegavam transportando condenados ao Holocausto. Na imensidão verdejante dos campos que compõem Auschwitz II (é vinte vezes maior que Auschwitz I), foi-nos explicada a velha eficiência alemã: os comboios chegavam e paravam a meio do ferrovia inserida no complexo, sendo aí efectuada a imediata triagem dos que, estando em condições para trabalhar seguiam para os seus “aposentos” e dos que, não estando em condições para trabalhar, maioritariamente crianças, mulheres e idosos, percorriam o resto da ferrovia até ao fim daquelas planícies verdejantes para aí conhecerem o fim da sua viagem que se constituía nas câmaras de gás e respectivos crematórios onde as cinzas da memória queimam a história humana. Depois de visitar as ruínas das câmaras de gás e crematórios fomos convidados a conhecer um exemplo dos “aposentos” onde os aptos a trabalhar ansiavam para que os seus no fim da planície se encontrassem melhor do que estes. Estes “aposentos”, muitos deles originalmente construídos como estábulos para albergar até 40 cavalos das SS, serviam de alojamento para mais de 200 prisoneiros, que em estrados de 4m por 4m e com diferença de 1m para os estrados de cima e em baixo, repousavam, em grupos de 5, a força de trabalho de tantas empresas alemãs, muitas delas ainda hoje existentes, na altura florescentes e crescentes em pujança com tão afincada e dedicada mão-de-obra. Foi depois de visitar os aposentos dos habitantes de Birkenau que foi dada como terminada a visita; era hora de voltar ao nosso carro onde o nosso motorista nos esperava para nos levar aos nossos aposentos, que o fez num caminho de cerca de uma hora enquanto bebia uma cerveja em copo de plástico adquirida em Birkenau.


Chegado ao meu quarto de hotel, e enquanto digeria aquela visita, o cachorro no meu estômago latia por soltura. Sentado na latrina do hotel “Kossak”, tentava confortar-me dizendo de mim para mim que tal atrocidade ocorrera há mais de 70 anos e, apesar de historicamente tal não ser muito, vivemos hoje num mundo completamente diferente em que o acesso massificado à cultura de informação impedirá tais manifestações de maldade e crueldade voltar a ocorrer. Mais reconfortado, puxei do meu Smartphone, onde na minha app do “Publico” li que o ministro das finanças alemão Wolfgang Schauble pedia a aplicação de sanções a Portugal e adivinhava novos pedidos de resgate para Portugal, numa tentativa de condicionar a condução da política nacional interna, no que apenas pode ser descrito como uma diplomacia abusiva e invasiva da soberania nacional; numa notícia logo abaixo fui confrontado com as declarações do cada vez mais popular candidato a líder do mundo livre, Donald Trump, nas quais o homem laranja da peruca loira prometia construir um muro ao longo de toda a fronteira com o México e garantia que faria os mexicanos pagar por esse mesmo muro. Percorrendo a página do Público, li como um homem, supostamente ligado ao terrorismo DAESH, se lançou com um camião numa imensa multidão em Nice, matando e trucidando indiscriminadamente. Li ainda como um outro homem, rapaz de 19 anos, entrou num comboio na Alemanha com um machado e começou a atacar para matar os seus passageiros. Ainda na Alemanha, em Munique, constava numa notícia paralela à anterior, um ataque terrorista a um centro comercial tirara a vida a nove pessoas. De volta a França, li como homens invadiram uma igreja na Normandia, fizeram cinco reféns incluindo um padre de 84 anos, que obrigaram a ajoelhar-se para depois o degolarem.

Cansado das notícias do macabro, decidi consultar um artigo de opinião; nesse artigo, o seu autor argumentava, sustentando esse argumentário empiricamente, que uma das principais consequências do terrorismo islâmico na Europa passará por um crescimento das forças políticas de extrema-direita, simpatizantes dos ideias xenófobos e racistas em que se alicerçou a construção de Auschwitz.

Depois de percorrer os meus olhos pela actualidade, eles que cansados estavam da visita desse dia ao passado macabro, não só os despojos vadios da minha tripa se perderam num esgoto de Cracóvia, com eles foi também esvaziado de mim o falso senso de conforto com que tentava superar Auschwitz.

 “Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.”, George Santayana, pseudónimo de Jorge Agustín Nicolás Ruiz de Santayana y Borrás